[vc_row type=”vc_default” full_width=”stretch_row” full_height=”yes” equal_height=”yes” parallax=”content-moving” parallax_speed_bg=”3″][vc_column][vc_single_image image=”7038″ img_size=”full” add_caption=”yes” alignment=”center”][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]“Deixem a arte em paz! Obras são pontos para reflexão, não estão ali para afirmar nada, e sim questionar”, explica Cibelle Cavalli Bastos. Uma das artistas selecionadas pela curadoria do QueerMuseu, exposição de temática LGBTQ que esteve em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre, ela se viu citada entre manifestações online contra a mostra em função de uma de suas obras: “Is a Feeling”, quadro em que uma criança tem um arco-íris sobreposto ao rosto.

“Se deram ao trabalho de imprimir a imagem e fazer um vídeo segurando-a e dizendo que aquilo era uma imundice, pedofilia, e que eu tinha que ser punida”, relembra. “Não sei onde o mundo vai parar com esse salto quântico de conexão e pensamento aí. Primeiramente, porque o arco-íris da diversidade não diz respeito somente à sexualidade.”

“Is a Feeling”, de Cibelle Cavalli Bastos

O episódio faz parte de uma sequência de acontecimentos que, nos últimos meses, catapultou a discussão sobre arte contemporânea às manchetes dos principais jornais e telejornais brasileiros. A polêmica começou em julho, com a detenção do artista Maikon K por realizar uma performance nu em frente ao Museu Nacional da República, em Brasília, e escalou à repercussão internacional em setembro com o encerramento precoce da citada exposição QueerMuseu, após uma onda de protestos nas redes sociais acusando a mostra de blasfêmia e apologia da pedofilia e zoofilia.

Dias depois, também sob a acusação de incitação ao abuso sexual infantil, um quadro da artista plástica Alessandra Cunha foi apreendido pela polícia em Campo Grande e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) foi atacado após a viralização de um vídeo que mostra uma criança, acompanhada da mãe, tocar o pé de Wagner Schwartz durante performance em que o coreógrafo deixa o corpo nu para manuseio do público.

“Pedofilia”, de Alessandra Cunha

Para Cibelle, parte do problema advém do modo como o grande público lida com a arte, acreditando que imagens e textos criados por um artista são afirmações apologéticas. “Falta educação com pensamento crítico. Não se ensina filosofia nem arte nas escolas, não se ensina a questionar, apenas a obedecer às leis, obedecer ao Estado.”

Para ela, uma das principais funções sociais da arte e do artista é diametralmente oposta ao modus operandi do pensamento conservador que, justamente, quer que as coisas fiquem como estão. “A arte abre portas, te tira do lugar, rompe a normatividade, te faz pensar”, filosofa. “O meu papel como artista é também o de promover a expansão de pensamento, a libertação interior de condicionamentos sociais, para que se possa, de fato, expandir o amor, a empatia, para que a gente possa se relacionar na terra pacificamente, com compaixão por si mesmo e por todos e pelo nosso crescimento espiritual individual e coletivo.”

Segundo o pesquisador e crítico de arte Ronaldo Entler, a arte é, sem dúvida, um espaço de crítica e contestação. No entanto, ele contemporiza que essa é uma de suas potências e não mais sua definição, já que, diferentemente das vanguardas do século 20, que tinham como motor o desejo de ruptura, um artista não precisa mais eleger um oponente para justificar suas escolhas. “A performance realizada no MAM, por exemplo, não quer transgredir nada. O corpo do artista apenas afirma e potencializa uma abertura da forma que já estava proposta por outra obra, um bicho de Lygia Clark”, explica o coordenador de pós-graduação da Faculdade de Comunicação da FAAP. “Para aqueles que viram efetivamente o trabalho, seria preciso estar muito predisposto e desejante para encontrar nele qualquer representação erótica.”

O coreógrafo Wagner Schwartz

O especialista identifica um certo anacronismo nas discussões recentes sobre a criação artística. A seu ver, a representação do sexo na pintura pode ter sido transgressora em algum momento do século 16 e o nu no museu pode ter sido libertário em meados do século 20, mas, hoje, não deveriam mais ser um ponto de choque. “Essa suposta agenda transgressora tem sido pautada por pessoas que estão muito distantes da arte”, afirma. “Não se percebeu, por exemplo, que a obra retirada de uma exposição no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande era, na verdade, uma manifestação contra a pedofilia. Não se trata de conservadorismo, mas de retrocesso. E cá estamos nós, neste exato momento, com dificuldades de olhar para a nudez.”

“Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo”, de Nicolas Poussin

No fim de outubro, o MASP inaugurou Histórias da Sexualidade, cuja curadoria selecionou 300 obras de 150 artistas que vão de Renoir, pintor francês do século 19, à artista contemporânea brasileira Adriana Varejão, incluindo também nomes como Cibelle Bastos, ouvida pela reportagem. Por seu conteúdo, que, além de nudez, inclui violência e sexo explícito, a mostra foi proibida para menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos pais.

Apesar da coincidência de timing, a mostra não foi pensada como resposta aos episódios recentes e já constava da programação do museu desde o ano passado. Isso não quer dizer, no entanto, que eles não tenham sido levados em conta. Segundo Lucas Pêssoa, diretor de operações da instituição, foram tomadas diversas medidas preventivas, que incluem o reforço do time de seguranças, bem como treinamento específico para a equipe de orientadores de público.

“O MASP respeita as opiniões e eventuais críticas que a mostra possa suscitar, e esperamos que as possíveis manifestações ocorram de forma madura, responsável e democrática”, afirma.

O artista chinês Ai Weiwei

No mesmo dia em que a exposição chegava à Avenida Paulista, a pouco mais de um quilômetro dali, o artista chinês Ai Wewei, em passagem pela cidade para a Mostra Internacional de Cinema, alertava para os perigos de cercear a arte. Ciente dos eventos recentes no país, ele disse: “A primeira coisa que essas pessoas fazem, sempre arvoradas em seu direito moral ou religioso, é tentar calar a voz da arte. É o primeiro sinal de que um momento perigoso de retrocesso político pode estar próximo. Pode até ser inspirador em algum sentido, mas também deprimente quando você se dá conta de que vive num mundo em que valores essenciais são violados. Sou chinês e essa é a realidade com a qual convivo há tempos”.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]